história25 set 2006 10:47 am

O período que vai de 70 a 140 foi ao mesmo tempo um período de expansão e de crise interna do judeu-cristianismo. Neste momento é que aparece sob múltiplas formas uma corrente dualista que será designada pelo nome de gnosticismo. Trata-se mesmo de um fato novo, ligado a uma situação histórica. Devemos distingui-lo da gnose que é de modo geral a corrente apocalíptica judaica e judeu-cristã. O gnosticismo constitui uma das formas de seu desdobramento. Não se identifica tampouco com as tendências dualistas apresentadas por certas correntes judias, como a de Qumrân, e que se vinculam quiçá a influências iranianas. Se lhe acontece tomar emprestado algum elemento a tais correntes, transforma-os numa radicalização que vem a ser então o gnosticismo.O meio em que aparece é o das zonas marginais do judaismo e do judeu-cristianismo. Já verificamos a existência de tais zonas. Antes de 70, aparecem como formas aberrantes da corrente messiânica e da expectativa apocalíptica. Mas não parece encontrar-se ai o gnosticismo no sentido próprio da palavra. R. M. Grant mostrou que Simão o Samaritano, apresentado pêlos heresiólogos como o pai da gnose, de fato não foi gnóstico, mas que seus discípulos se tornaram tais, após 70. O milenarismo asiata já é ativo na época em que São Paulo escreve a Timóteo, mas torna-se uma heresia gnóstica caracterizada, somente no fim do primeiro século com Cerinto. H. J. Schoeps tem sem dúvida razão, quando vê no ebionismo uma heterodoxia judeu-cristã muito arcaica, aos olhos da qual Cristo é o profeta anunciado por Moisés, mas não o Filho de Deus. Mas O. Cullmann verifica igualmente, com razão, que, segundo Epifânio, somente após 70 tal grupo representa uma heterodoxia.
Parece que é neste sentido que se deve interpretar um texto de Hegesipo sobre as origens das heresias (H. E. 5,22,5). Hegesipo escreve que foi sob o episcopado de Simeão, após a morte de Tiago, que Tebútis introduz as heresias, partindo das sete seitas judaicas. Nomeia como iniciadores destas heresias Simão, Cleóbio, Dosíteo, Gorteio e os Masboteus. Ajunta então: “Destes derivam os menandrianistas, os marcionitas, os carpocracianos, os valentinianos, os basilidianos, os satornilianos”. É evidente que o texto não pode ser tomado ao pé da letra. Mas duas idéias dai procedem. A primeira é a distinção em três etapas do movimento que conduz ao gnosticismo. O meio em que se origina é o judaismo heterodoxo. A partir dele, desenvolve-se o cristianismo heterodoxo de Simão e dos nazareus. Afinal, deste cristianismo heterodoxo nasce o gnosticismo propriamente dito. Alias Hegesipo fixa para o tempo do episcopado de Simeão, quer dizer, para depois da queda de Jerusalém, a aparição do gnosticismo. Seu erro esta em datar para esta época Simão e os masboteus, quando já se trata da terceira vaga. 
1. O Ebionismo
Anotemos primeiro a existência de dois movimentos heterodoxos judeu-cristãos, depois de 70, que não são propriamente gnósticos. São Justino, em seu Diálogo, pouco após 150. distingue duas categorias de judeu-cristãos: os que participam da fé comum, mas permanecem fiéis às observâncias judaicas, e que são os descendentes da comunidade de Tiago; outros “que reconhecem Jesus como Cristo, embora afirmem que tenha sido homem entre os homens”. Justino não aplica a este grupo a designação de ebionitas. Mas as informações de Ireneu, de Orígenes, de Eusébio, convergem todas no sentido de que a afirmação que Cristo é homem como os demais, nascido de José e de Maria, seja um traço característico do ebionismo.
Tal conceito de Jesus, como o profeta anunciado por Moisés mas não como Filho de Deus, foi comum a numerosos grupos de judeu-cristãos heterodoxos. É muito provável que se tenha encontrado muito antes de 70. É o que devemos conceder a H. J. Schoeps. No entanto, é possível determinar com mais precisão as coordenadas da seita dos ebionitas no sentido estrito. Epifânio situa sua origem para depois da tomada de Jerusalém, entre judeu-cristãos refugiados em Pela Nesta região foi que ele teve em mãos o evangelho deles, do qual nos guardou extratos. O Evangelho representa uma transformação do Evangelho dos Nazareus em sentido heterodoxo. Sua redação remonta ao inicio do segundo século, sob Trajano. As práticas batistas nos orientam igualmente para a Transjordânia.
Epifânio enumera entre os livros santos deles as Viagens de Pedro: Esta obra, que esta à base das Homilias e dos Reconhecimentos Clementinos, repousa por sua vez sobre os Quérigmas de Pedro que datam da primeira metade do segundo século. Ora, estes últimos revelam contatos notáveis com a doutrina dos essênios, em particular com o verdadeiro Profeta, os dois espíritos, a rejeição dos sacrifícios sangrentos. É pois a justo título que Cullmann propôs vermos nos ebionitas um grupo de essênios convertidos a Cristo após 70, na Transjordânia, quer tenham fugido de Qumrân, quer tenham feito parte da emigração de Kokba, nas proximidades de Damasco. Tratar-se-ia de cristãos de língua aramaica, muito afeiçoados às práticas judaicas, mas hostis ao Templo de Jerusalém e agarrados a doutrinas esotéricas, como a transmigração. Estamos em face de um desenvolvimento normal do grupo de Qumrân. Os ebionitas partilham da concepção essênia da oposição entre os dois princípios. Santo Ireneu sublinha porém expressamente que não ensinam a .teoria de o mundo ter sido criado por algum outro que não fosse Deus. Não fazem assim parte dos gnósticos no sentido próprio do termo.
2. O Elcasaísmo
No reinado de Trajano aparece outra seita. Seu fundador Elxai recebeu a revelação através dum livro que lhe foi dado por um anjo. O conteúdo do livro é a mensagem sobre o perdão dos pecados cometidos depois do batismo. Elxai recebeu sua revelação no pais dos partas, no terceiro ano do reinado de Trajano, quer dizer no ano 100. A dominação dos partas estendia-se então por sobre a Síria oriental. Trajano os combateu. A apresentação da revelação faz lembrar o “Canto da pérola”, conservado nos Atos de Tomé, que e da mesma época e se ressente de traços da mitologia parta. As reminiscências judaicas também são impressionantes: Elxai reafirma que os fiéis são obrigados a circuncidar-se e a viver em conformidade com a Lei. Os Elcasaítas rezam voltados para Jerusalém. Elxai procede do judaismo e “pensa como judeu”.
Conhece aliás a Cristo. Mas seu cristianismo lembra em muitos traços o ebionismo. Cristo é apenas profeta. As Epístolas de São Paulo são rejeitadas (H. E. 6,38). Os elcasaítas não passam pois de judeu-cristãos heterodoxos. Mas prendem-se também ao judaismo heterodoxo. Rejeitam os sacrifícios. Retém apenas certas partes do Antigo Testamento (H. E. 6,38). Conhecem igualmente práticas batistas. Peterson provou que elas consistiam em expulsar a concupiscência, o mau yezer, considerado como demônio. Anotemos afinal a semelhança com Hermas, que também recebe a revelação através de um livro, cujo conteúdo é a pregação de uma última remissão para os pecados cometidos após o batismo. Ora, Hermas é profeta judeu-cristão. Podemos pois concluir de tais dados que o elcasaismo é um movimento judeu-cristão heterodoxo, vizinho do ebionismo mas vinculado à Síria oriental.
3. Os Nicolaítas
Os livros do Novo Testamento, posteriores ao ano 70, nos descrevem um movimento que apresenta em toda parte traços análogos A Epistola de Judas emana dos judeu-cristãos que voltaram a Jerusalém após 70. O autor está nutrido da apocalíptica judaica. Denuncia homens que se mancham no corpo, menosprezam a soberania e injuriam as glórias (8). Murmuram, e se queixam de sua sorte (16). São zombeteiros, psíquicos, que não possuem o espírito (18-19). As mesmas expressões aparecem na II Epistola de São Pedro. Os falsos doutores (2,1) fazem pouco caso da soberania e se abandonam às cobiças da carne (2.10). Desprezam a glória (2,10). Seguem o caminho de Balaão (2,15). São zombeteiros (3,3). Prometem a liberdade, sendo eles próprios escravos da corrupção (2,19).
O Apocalipse de João nos descreve um grupo de tendência semelhante na Ásia Menor. Censura a Pérgamo e Tiatira por haverem permitido que nelas entrassem “pessoas mancomunadas com a doutrina de Balaão, que comem carnes imoladas aos ídolos e se entregam a impudicícia” (2,14 e 20) e pretendem conhecer “as profundezas de Satanás” (2,25). Se reunirmos os traços que reaparecem nestes textos, verificaremos em primeiro lugar a rejeição completa das observâncias noáquicas, fato que devia escandalizar os judeu-cristãos. Mas há mais. A soberania e as glórias estão sendo injuriadas. O que parece significar de fato uma condenação do Deus da criação e do Antigo Testamento. Tal doutrina esta relacionada com Balaão, que para o judaismo contemporâneo é o ancestral dos magos e o pai do dualismo. Encontramos ai os traços fundamentais da revolta gnóstica contra o Deus do Antigo Testamento, considerado como alguém que iludiu as esperanças apocalípticas. A doutrina professa aliás uma liberdade total, que não passa de imitação falaz da liberdade espiritual das igrejas paulinas.
O Apocalipse distingue deste primeiro grupo o dos nicolaítas. Éfeso recebe felicitações por odia-los (2,6). Pérgamo, pelo contrário, agasalha pessoas que participam deles (2,15). Santo Ireneu nos conta que tinham por mestre um prosélito de Antioquia, que os Atos mencionam como sendo dos Sete. Esta vinculação parece já suspeita a Eusébio (H. E. 3,29,1). Talvez tenha resultado da interpretação de uma anedota, contada por Clemente de Alexandria, segundo a qual este Nicolau teria oferecido sua mulher a outros. Nossas informações sobre os nicolaítas se reduzem assim a pouca coisa. Nicolau era o equivalente grego de Balaão. Esta característica, unida ao paralelo traçado pelo Apocalipse sobre os nicolaítas e a seita precedente, leva a pensar que se trata de uma mesma corrente de condenação do Deus do Antigo Testamento e da libertinagem moral.
4. Cerinto
Os primeiros movimentos gnósticos aparecem assim nos meios judeu-cristãos da Palestina e da Ásia, no tempo de Domiciano. Um segundo grupo é o de Cerinto. Santo Ireneu nos diz que era contemporâneo de João. Trata-se de um judeu-cristão que mantém a circuncisão e o sábado. Aguarda para depois da ressurreição um reino terrestre de Cristo, de caráter materialista e a restauração do culto em Jerusalém (H. E. 3,28,2,5). Ensina, além disso, que o mundo não foi criado por Deus, mas por um poder muito distante e que ignora o Deus que paira por sobre tudo. Jesus nasceu de José e de Maria. Não passa de um homem eminente. Cristo desceu sobre ele, sob a forma de pomba, na hora do batismo. Anunciou o Pai desconhecido. Depois subiu para o Pai, antes da Paixão.
Se analisarmos os diversos elementos destas informações, distinguiremos dois dados principais. Por um lado, Cerinto prolonga uma corrente judeu-cristã heterodoxa. Prende-se a um messianismo de caráter muito materialista. Esse milenarismo lhe era comum com muitos cristãos da Ásia. Mas nega o nascimento virginal de Jesus e sua natureza divina. É um grande profeta sobre o qual desceu o poder divino. Estamos aqui diante de um judeu-cristianismo heterodoxo, como o encontramos no ebionismo. Não admira que Epifânio aproxime Cerinto dos ebionitas. Afinal Cerinto considera que o mundo não foi criado por Deus, mas por um demiurgo que ignora o verdadeiro Deus. É o gnosticismo propriamente dito, que aparece pela vez primeira em sua formulação precisa. Por este traço, característico da era de Trajano, Cerinto modifica uma corrente judeu-cristã anterior. Encontra-se tanto na heterodoxia judaica quanto no cristianismo.
5. Os Simonianos
Hegesipo labora seguramente em erro quando faz de Simão um discípulo de Tebútis, depois de 70. Mas o que parece exato, conforme bem o acentuou R. J. Grant, é que o movimento desencadeado por Simão, que de inicio fora um messianismo samaritano, assume após 70 traços novos. Podemos relacionar tal desenvolvimento ou com Menandro, de quem ainda falaremos, ou com Cleóbio, que Hegesipo nomeia como um dos hereges formados por Tebútis depois de 70 e que aparece associado a Simão em mais de um texto. Estamos em presença de uma evolução análoga a do messianismo asiata que com Cerinto assume traços mais acusados depois de 70. 0 primeiro autor a nos informar sobre o desdobramento do movimento simoniano é Justino. Como ele próprio e de origem samaritana, seu testemunho merece fé. Ireneu consagra a Simão uma longa noticia.
Justino declara que quase todos os samaritanos adoram Simão como o primeiro Deus e lhe associam certa Helena, que é seu primeiro pensamento (enoia). Estamos em presença de uma evolução considerável em relação ao que diziam de Simão os Atos. Como o relevou Grant, Simão aparece como o primeiro Deus, por oposição aos anjos que criaram o mundo e inspiraram o Antigo Testamento, segundo precisões fornecidas por Ireneu. O primeiro Deus vem libertar o homem dos anjos que governavam mal a criação. Estamos aqui de fato diante do gnosticismo, com a condenação do Deus do Antigo Testamento, e da criação que é sua obra. Tiveram razão os Padres da Igreja, quando fizeram da doutrina simoniana o começo deste movimento. Mas tal dualismo gnóstico não remonta a Simão em pessoa. Representa sim o desenvolvimento de sua doutrina, depois de 70. É nesta hora que o gnosticismo aparece simultaneamente na Ásia e na Síria.
A associação do personagem de Helena a Simão pode relacionar-se com o culto de Helena na Samaria, ou simplesmente com a preocupação de helenizar, conforme pensa Grant. Em todo o caso, reencontramos aqui desde o inicio um traço deste sincretismo que caracteriza o gnosticismo. Justino atesta igualmente a existência, na época em que escreve (por 145), de uma comunidade simoniana em Roma, sem dúvida entre os samaritanos. Relaciona a fundação desta comunidade com uma vinda de Simão a Roma, na época de Cláudio (antes de 54), no tempo em que veio Pedro. Os escritos pseudo-clementinos por sua vez confirmam as controvérsias romanas entre Pedro e Simão. Teremos que ver ai a expressão legendária da expansão do gnosticismo durante o período, e seus conflitos com as comunidades cristãs. Justino menciona enfim a presença de um altar consagrado a Simão na ilha do Tibre. Trata-se de fato de um altar consagrado a uma divindade sabina da fertilidade, Semo Sancus. Este altar foi reencontrado em 1574. Mas é possível que os discípulos de Simão tenham julgado reconhecer ai a expressão do culto de seu fundador e deus.
6. Menandro
Hegesipo menciona os menandrianistas, na segunda vaga das seitas nascidas da heterodoxia judaica. Justino nos revela que Menandro era samaritano, como Simão, e discípulo do mesmo. Acrescenta que veio de Antioquia. Foi pois por seu intermédio que o gnosticismo se desenvolveu na Síria ocidental, que há de transformar-se em um de seus principais centros. Justino começa por dizer-nos que praticava a magia, traço comum dos gnósticos samaritanos. O gnosticismo não era apenas uma teologia, mas também uma teurgia. Eusébio anota que suas veleidades de mágico contribuíam para desacreditar os cristãos nos meios pagãos. E, de fato, surpreendem-nos, no segundo século, Luciano e Celso apresentando o próprio Cristo como mágico.
Segundo Justino, Menandro ensinava ainda que aqueles que o seguiam não haveriam de morrer. Temos sem dúvida uma alusão às esperanças messiânicas. São Paulo advertira os tessalonicenses contra “palavras proféticas, afirmações ou cartas dadas como se de nós viessem e que vos fariam imaginar iminente o Dia do Senhor” (2 Tess 2,2). Em Éfeso, Himeneu e Fileto ensinavam que a ressurreição já tivera lugar (2 Tim 2,17). Com Menandro, estamos exatamente no prolongamento do messianismo de Simão e de Cerinto. Santo Ireneu afirmou ainda de Menandro que se apresentava como o Salvador enviado do alto, do mundo dos éons invisíveis, para salvar os homens. Graças ao batismo, tornar-se-iam superiores aos anjos da criação. Estas doutrinas são vizinhas daquela que Ireneu empresta a Simão. É possível que seja Menandro que tenha dado ao messianismo samaritano de Simão seu caráter de teologia gnóstica.
7. Satornil
Menandro marca o encontro entre o messianismo samaritano de Simão e o gnosticismo. Dedica-se ao apostolado em Antioquia entre 70 e 100. Satornil se torna seu herdeiro, conforme já o atesta Justino. É a primeira grande figura do gnosticismo propriamente dito. Sua ação se passa em Antioquia, entre 100 e 130 mais ou menos. No início da carreira, teve por bispo a Inácio. Sua doutrina representa o desenvolvimento do que encontramos com Menandro. Opõe os sete anjos criadores, com o Deus dos judeus por chefe, ao Deus escondido. Estes anjos e que criam o homem, mas ele se arrasta sobre a terra, enquanto o Deus escondido não lhe concede uma parte da luz que emite. Aliás, Satornil condena o casamento, que ele deriva de Satanás; alguns de seus discípulos não comem carne.
Santo Ireneu observa que é ele o primeiro a distinguir duas raças de homens, os que têm parte na luz celeste e os que não têm parte nela. Tal doutrina é que constitui propriamente o dualismo gnóstico, que subtrai a Deus o que procede da criação pêlos anjos planetários. Mas percebemos quanto o contexto ainda continua sendo judeu. Depende da narração da criação pelo Gênese, narração que se transforma em um dos temas da especulação judia do tempo; seu ascetismo procede do judaismo marginal; sua doutrina dos sete arcanjos é a do apocalipse judeu. Ao mesmo tempo porém faz de Javé o príncipe dos anjos responsáveis pela criação. Trata-se pois de uma crise no interior do judeu-cristianismo, duma revolta contra o Deus de Israel.
Menandro marca o encontro entre o messianismo samaritano de Simão e o gnosticismo. Dedica-se ao apostolado em Antioquia entre 70 e 100. Satornil se torna seu herdeiro, conforme já o atesta Justino. É a primeira grande figura do gnosticismo propriamente dito. Sua ação se passa em Antioquia, entre 100 e 130 mais ou menos. No início da carreira, teve por bispo a Inácio. Sua doutrina representa o desenvolvimento do que encontramos com Menandro. Opõe os sete anjos criadores, com o Deus dos judeus por chefe, ao Deus escondido. Estes anjos e que criam o homem, mas ele se arrasta sobre a terra, enquanto o Deus escondido não lhe concede uma parte da luz que emite. Aliás, Satornil condena o casamento, que ele deriva de Satanás; alguns de seus discípulos não comem carne.Santo Ireneu observa que é ele o primeiro a distinguir duas raças de homens, os que têm parte na luz celeste e os que não têm parte nela. Tal doutrina é que constitui propriamente o dualismo gnóstico, que subtrai a Deus o que procede da criação pêlos anjos planetários. Mas percebemos quanto o contexto ainda continua sendo judeu. Depende da narração da criação pelo Gênese, narração que se transforma em um dos temas da especulação judia do tempo; seu ascetismo procede do judaismo marginal; sua doutrina dos sete arcanjos é a do apocalipse judeu. Ao mesmo tempo porém faz de Javé o príncipe dos anjos responsáveis pela criação. Trata-se pois de uma crise no interior do judeu-cristianismo, duma revolta contra o Deus de Israel.
8. Os Barbelognósticos
Santo Ireneu resume no capitulo XIX do livro I do Adversus Haereses a doutrina de uma seita que ele chama de barbelognósticos. Possuímos agora a obra de que resume a primeira parte. Trata-se do Apócrifo de João, conservado num exemplar em Berlim; e de que foram reencontrados três outros em Nag Hammadi. O número importante de exemplares atesta que se trata de obra capital. Apresenta-se sob a forma de uma revelação feita por Cristo ressuscitado a São João no Monte das Oliveiras. A primeira parte contém uma genealogia dos éons do pléroma. Depois, a partir de 45,5, temos uma sorte de comentário ao Gênesis. Os sete arcontes tentam formar um homem a semelhança de Deus. Tal homem é incapaz de mover-se. A Sabedoria, Sophia, lhe comunica uma forca, que o torna superior aos arcontes, e suscita a inveja dos mesmos, em particular do chefe deles laldabaoth, o Javé judeu.
A obra está repleta de alusões aos apócrifos judeus. Estamos sempre no mesmo ambiente. A doutrina aliás se assemelha aquela que desenvolve a Epistola de Eugnosto, reencontrada em Nag Hammadi. Pareceria assim ser antes a obra de um discípulo de Satornil, e não de Satornil mesmo. Sua origem síria parece evidente. Possuímos afinal um documento original do gnosticismo primitivo. H. Ch. Puech data-o da primeira metade do segundo século. Todos os temas gnósticos já estão presentes, incluídos os éons do pléroma e o papel de Sophia. Ao mesmo tempo a unidade da doutrina gnóstica aparece através da multiplicidade de suas expressões e de suas correntes.
9. 0s Setenses
O capitulo XXX do livro I de Santo Ireneu, depois da doutrina dos barbelognósticos, nos apresenta a dos setenses. A comparação desta informação com a segunda parte do Apócrifo de João, resumido no capitulo anterior por Ireneu, torna patente que se trata de um desdobramento da mesma gnose, de caráter judeu-cristão mais marcado Os éons do pléroma são, depois do Pai, o Filho e o Espirito Santo, em seguida o Cristo e a Igreja. Os éons do Pléroma produzem Sophia. Esta por sua vez engendra, pela união com as águas inferiores, sete filhos, laldabaoth, Iao, Sabbaoth, Adonai, Elohim, Astaphaim e Horaios (1,30,5). Os anjos formam o homem a sua semelhança. Cristo desce através dos sete céus, para estupor dos poderes, tomando formas de anjos em cada céu (1,30,1 1).
Possuímos aqui os mesmos temas fundamentais que encontramos no Apocryphon. Anotemos que os sete anjos trazem os diferentes nomes de Javé no Antigo Testamento. Encontramos além disso os temas da teologia judeu-cristã, tal como a encontramos na Ascensão de Isaías, na Epistola dos Apóstolos, no Pastor de Hermas: preexistência de Cristo e da Igreja, descida oculta de Cristo através das esferas dos anjos, estupor dos poderes. Estamos em presença do gnosticismo judeu-cristão mais caracterizado. É contemporâneo da teologia judeu-cristã. Sua ligação com Antioquia parece certa É a tal grupo que se ligarão diversas obras reencontradas em Nag Hammadi, como o Livro do Grande Seth.
10. Carpócrates
Da Ásia e da Síria, o gnosticismo judeu-cristão se difundiu para o Egito, onde devia experimentar um desenvolvimento extraordinário. Sabemos que Cerinto veio a Alexandria. Por 120, ai encontramos uma doutrina que aparece como desenvolvimento da sua, é a de Carpócrates. Também ele ensina que o mundo foi criado pêlos anjos, que Jesus nasceu de José e que um poder baixou nele. Aquele que partilha com ele o poder lhe é igual. Pode menosprezar os arcontes fabricantes do mundo e cumprir os mesmos prodígios que Jesus. É um traço que estivera ausente em Cerinto. Pode prender-se no entanto ao gnosticismo asiata sob a forma mais acusada.
Efetivamente, Carpócrates não apresenta traço algum do milenarismo messiânico de Cerinto. Este aliás permaneceu circunscrito a Ásia e ao mundo ocidental. Por outro lado, reencontramos nele a concepção segundo a qual o homem não pode ser libertado dos arcontes, senão depois de ter sido escravo dos vícios aos quais aqueles presidem. Caso contrário, terá que reencarnar-se para pagar sua divida. A doutrina dos demônios dos vícios, a da reencarnação, provêm do judaismo heterodoxo. Carpócrates lhe ajunta um amoralismo, que parece ter sua origem na revolta gnóstica não somente contra o Deus judeu, mas contra a Lei. Por este traço e pelo menosprezo votado aos anjos, lembra os nicolaítas e aparece como a expressão do gnosticismo em estado puro, ao rejeitar, com violência, a criação.
11. Basílides
Basílides também é alexandrino e contemporâneo de Carpócrates. Mas Epifânio nos mostra nele um discípulo de Menandro. É patente aliás que seu gnosticismo se situa no prolongamento do gnosticismo sírio. Mas foi ele o primeiro a organizar as doutrinas dos simonianos em uma grande síntese. Encontramos nele a concepção dos anjos criadores do mundo, repartindo entre si a dominação do mesmo. Um dentre eles é o Deus dos judeus, que procura submeter os demais a seu poder. Basílides não empresta importância ao fato de se comerem carnes imoladas aos ídolos. João fazia tal censura aos nicolaítas no Apocalipse. Esta total libertação da Lei caracteriza os gnósticos e representa um exagero do paulinismo, no extremo oposto do judeu-cristianismo joaneico.
O interesse demonstrado por Basílides reside no fato de a apocalíptica judaica aparecer nele, melhor que em todos os outros, em sua transposição gnóstica. R. M. Grant já consignou como as especulações sobre o calendário sagrado, que eram uma das expressões da teologia da história nos autores apocalípticos judeus, se transportam para um plano cosmológico e fornecem o quadro da doutrina dos éons. Assim, para Basílides, existem trezentos e sessenta e cinco céus, e a cada qual corresponde uma ordem de anjos. Basílides além disso declara que é ele próprio o intermediário entre judeus e cristãos. É também ao judaismo que Basílides toma emprestada sua doutrina dos vícios como demônios pessoais que fixam morada na alma. Já fizemos referência a ela em Carpócrates.
O cotejo dos diversos movimentos não nos deixa dúvidas sobre a continuidade fundamental deles entre si. O elemento primordial é a oposição do Deus escondido, que se manifestará em Cristo, aos anjos criadores do mundo, entre os quais se encontra Javé. Tal tradição pode ter tido suas antecipações na tradição judaica, pelo papel atribuído aos anjos na criação do homem e na transmissão da Lei. Mas depois de 70, se torna ela para certo número de judeus e judeu-cristãos a expressão da revolta contra Deus, que os decepcionou em sua expectativa escatológica, e contra a criação que é sua obra. A origem judaica e judeu-cristã aparece claramente no fato de todos estes elementos – especulação sobre o Gênese, doutrina dos sete anjos, calendário sagrado, anjos dos vícios, descida através das esferas, – terem sua raiz na Apocalíptica.
As linhas do desenvolvimento histórico do movimento se apresentam igualmente claras. O gnosticismo nasce após 70 nos meios judeu-cristãos messianistas da Ásia com Cerinto, de Antioquia com Menandro. A corrente asiática apresenta um caráter mais prático. Sublinha sobretudo o aspecto da revolta contra a Lei. Apresenta-se como exasperação de certas tendências paulinas. Reveste certas formas amoralistas. A corrente antioquena é mais especulativa. É ele que suscita com o Apocryphon de João, a primeira grande obra gnóstica que conhecemos. As duas correntes desenvolvem-se em Alexandria no fim do período que ora estudamos. Mas enquanto o primeiro não deve demorar a extinguir-se com as últimas chamas do messianismo judeu, o segundo há de encontrar no ambiente alexandrino as condições para um desenvolvimento extraordinário.
Menandro marca o encontro entre o messianismo samaritano de Simão e o gnosticismo. Dedica-se ao apostolado em Antioquia entre 70 e 100. Satornil se torna seu herdeiro, conforme já o atesta Justino. É a primeira grande figura do gnosticismo propriamente dito. Sua ação se passa em Antioquia, entre 100 e 130 mais ou menos. No início da carreira, teve por bispo a Inácio. Sua doutrina representa o desenvolvimento do que encontramos com Menandro. Opõe os sete anjos criadores, com o Deus dos judeus por chefe, ao Deus escondido. Estes anjos e que criam o homem, mas ele se arrasta sobre a terra, enquanto o Deus escondido não lhe concede uma parte da luz que emite. Aliás, Satornil condena o casamento, que ele deriva de Satanás; alguns de seus discípulos não comem carne.Santo Ireneu observa que é ele o primeiro a distinguir duas raças de homens, os que têm parte na luz celeste e os que não têm parte nela. Tal doutrina é que constitui propriamente o dualismo gnóstico, que subtrai a Deus o que procede da criação pêlos anjos planetários. Mas percebemos quanto o contexto ainda continua sendo judeu. Depende da narração da criação pelo Gênese, narração que se transforma em um dos temas da especulação judia do tempo; seu ascetismo procede do judaismo marginal; sua doutrina dos sete arcanjos é a do apocalipse judeu. Ao mesmo tempo porém faz de Javé o príncipe dos anjos responsáveis pela criação. Trata-se pois de uma crise no interior do judeu-cristianismo, duma revolta contra o Deus de Israel.Santo Ireneu resume no capitulo XIX do livro I do Adversus Haereses a doutrina de uma seita que ele chama de barbelognósticos. Possuímos agora a obra de que resume a primeira parte. Trata-se do Apócrifo de João, conservado num exemplar em Berlim; e de que foram reencontrados três outros em Nag Hammadi. O número importante de exemplares atesta que se trata de obra capital. Apresenta-se sob a forma de uma revelação feita por Cristo ressuscitado a São João no Monte das Oliveiras. A primeira parte contém uma genealogia dos éons do pléroma. Depois, a partir de 45,5, temos uma sorte de comentário ao Gênesis. Os sete arcontes tentam formar um homem a semelhança de Deus. Tal homem é incapaz de mover-se. A Sabedoria, Sophia, lhe comunica uma forca, que o torna superior aos arcontes, e suscita a inveja dos mesmos, em particular do chefe deles laldabaoth, o Javé judeu.A obra está repleta de alusões aos apócrifos judeus. Estamos sempre no mesmo ambiente. A doutrina aliás se assemelha aquela que desenvolve a Epistola de Eugnosto, reencontrada em Nag Hammadi. Pareceria assim ser antes a obra de um discípulo de Satornil, e não de Satornil mesmo. Sua origem síria parece evidente. Possuímos afinal um documento original do gnosticismo primitivo. H. Ch. Puech data-o da primeira metade do segundo século. Todos os temas gnósticos já estão presentes, incluídos os éons do pléroma e o papel de Sophia. Ao mesmo tempo a unidade da doutrina gnóstica aparece através da multiplicidade de suas expressões e de suas correntes.O capitulo XXX do livro I de Santo Ireneu, depois da doutrina dos barbelognósticos, nos apresenta a dos setenses. A comparação desta informação com a segunda parte do Apócrifo de João, resumido no capitulo anterior por Ireneu, torna patente que se trata de um desdobramento da mesma gnose, de caráter judeu-cristão mais marcado Os éons do pléroma são, depois do Pai, o Filho e o Espirito Santo, em seguida o Cristo e a Igreja. Os éons do Pléroma produzem Sophia. Esta por sua vez engendra, pela união com as águas inferiores, sete filhos, laldabaoth, Iao, Sabbaoth, Adonai, Elohim, Astaphaim e Horaios (1,30,5). Os anjos formam o homem a sua semelhança. Cristo desce através dos sete céus, para estupor dos poderes, tomando formas de anjos em cada céu (1,30,1 1).Possuímos aqui os mesmos temas fundamentais que encontramos no Apocryphon. Anotemos que os sete anjos trazem os diferentes nomes de Javé no Antigo Testamento. Encontramos além disso os temas da teologia judeu-cristã, tal como a encontramos na Ascensão de Isaías, na Epistola dos Apóstolos, no Pastor de Hermas: preexistência de Cristo e da Igreja, descida oculta de Cristo através das esferas dos anjos, estupor dos poderes. Estamos em presença do gnosticismo judeu-cristão mais caracterizado. É contemporâneo da teologia judeu-cristã. Sua ligação com Antioquia parece certa É a tal grupo que se ligarão diversas obras reencontradas em Nag Hammadi, como o Livro do Grande Seth.Da Ásia e da Síria, o gnosticismo judeu-cristão se difundiu para o Egito, onde devia experimentar um desenvolvimento extraordinário. Sabemos que Cerinto veio a Alexandria. Por 120, ai encontramos uma doutrina que aparece como desenvolvimento da sua, é a de Carpócrates. Também ele ensina que o mundo foi criado pêlos anjos, que Jesus nasceu de José e que um poder baixou nele. Aquele que partilha com ele o poder lhe é igual. Pode menosprezar os arcontes fabricantes do mundo e cumprir os mesmos prodígios que Jesus. É um traço que estivera ausente em Cerinto. Pode prender-se no entanto ao gnosticismo asiata sob a forma mais acusada.Efetivamente, Carpócrates não apresenta traço algum do milenarismo messiânico de Cerinto. Este aliás permaneceu circunscrito a Ásia e ao mundo ocidental. Por outro lado, reencontramos nele a concepção segundo a qual o homem não pode ser libertado dos arcontes, senão depois de ter sido escravo dos vícios aos quais aqueles presidem. Caso contrário, terá que reencarnar-se para pagar sua divida. A doutrina dos demônios dos vícios, a da reencarnação, provêm do judaismo heterodoxo. Carpócrates lhe ajunta um amoralismo, que parece ter sua origem na revolta gnóstica não somente contra o Deus judeu, mas contra a Lei. Por este traço e pelo menosprezo votado aos anjos, lembra os nicolaítas e aparece como a expressão do gnosticismo em estado puro, ao rejeitar, com violência, a criação.Basílides também é alexandrino e contemporâneo de Carpócrates. Mas Epifânio nos mostra nele um discípulo de Menandro. É patente aliás que seu gnosticismo se situa no prolongamento do gnosticismo sírio. Mas foi ele o primeiro a organizar as doutrinas dos simonianos em uma grande síntese. Encontramos nele a concepção dos anjos criadores do mundo, repartindo entre si a dominação do mesmo. Um dentre eles é o Deus dos judeus, que procura submeter os demais a seu poder. Basílides não empresta importância ao fato de se comerem carnes imoladas aos ídolos. João fazia tal censura aos nicolaítas no Apocalipse. Esta total libertação da Lei caracteriza os gnósticos e representa um exagero do paulinismo, no extremo oposto do judeu-cristianismo joaneico.O interesse demonstrado por Basílides reside no fato de a apocalíptica judaica aparecer nele, melhor que em todos os outros, em sua transposição gnóstica. R. M. Grant já consignou como as especulações sobre o calendário sagrado, que eram uma das expressões da teologia da história nos autores apocalípticos judeus, se transportam para um plano cosmológico e fornecem o quadro da doutrina dos éons. Assim, para Basílides, existem trezentos e sessenta e cinco céus, e a cada qual corresponde uma ordem de anjos. Basílides além disso declara que é ele próprio o intermediário entre judeus e cristãos. É também ao judaismo que Basílides toma emprestada sua doutrina dos vícios como demônios pessoais que fixam morada na alma. Já fizemos referência a ela em Carpócrates.O cotejo dos diversos movimentos não nos deixa dúvidas sobre a continuidade fundamental deles entre si. O elemento primordial é a oposição do Deus escondido, que se manifestará em Cristo, aos anjos criadores do mundo, entre os quais se encontra Javé. Tal tradição pode ter tido suas antecipações na tradição judaica, pelo papel atribuído aos anjos na criação do homem e na transmissão da Lei. Mas depois de 70, se torna ela para certo número de judeus e judeu-cristãos a expressão da revolta contra Deus, que os decepcionou em sua expectativa escatológica, e contra a criação que é sua obra. A origem judaica e judeu-cristã aparece claramente no fato de todos estes elementos – especulação sobre o Gênese, doutrina dos sete anjos, calendário sagrado, anjos dos vícios, descida através das esferas, – terem sua raiz na Apocalíptica.As linhas do desenvolvimento histórico do movimento se apresentam igualmente claras. O gnosticismo nasce após 70 nos meios judeu-cristãos messianistas da Ásia com Cerinto, de Antioquia com Menandro. A corrente asiática apresenta um caráter mais prático. Sublinha sobretudo o aspecto da revolta contra a Lei. Apresenta-se como exasperação de certas tendências paulinas. Reveste certas formas amoralistas. A corrente antioquena é mais especulativa. É ele que suscita com o Apocryphon de João, a primeira grande obra gnóstica que conhecemos. As duas correntes desenvolvem-se em Alexandria no fim do período que ora estudamos. Mas enquanto o primeiro não deve demorar a extinguir-se com as últimas chamas do messianismo judeu, o segundo há de encontrar no ambiente alexandrino as condições para um desenvolvimento extraordinário.

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