artigos and citações and vida cristã14 abr 2008 01:37 pm

Andarei em campo minado. A prisão de Estevam e Sonia Hernandez,

apóstolo e bispa da Igreja Renascer, não pode ser varrida para baixo do tapete.

 

Não finjamos que não houve nada. A Renascer pertence à ala neopentecostal

do movimento evangélico. Que dista da ala pentecostal. Que dista da ala

tradicional.

Alguns citam as palavras de Jesus, “não julgueis, para que não sejais

julgados” (Mt 7.1), para fechar os olhos aos erros cometidos em nome do

evangelho. Mas Paulo reclamou da igreja de Corinto em não julgar um crente

que procedia mal: “Não julgais vós os que estão de dentro?” (1Co 5.14). E diz

1João 4.1: “Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos

vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo”. Se os

profetas da era apostólica tinham de ser provados, os de hoje também!

O movimento evangélico está desfigurado. Isto se vê nos títulos autooutorgados.

Antigamente, os pastores eram apenas pastores. Agora há bispos,

apóstolos, paipóstolo e bispa (o feminino de “bispo” é “episcopisa”, aprendi

no primário). Daqui a pouco haverá vice-Deus e quarta pessoa da Trindade,

numa megalomania que desfoca o evangelho.

Os adeptos do neopentecostalismo podem me esbordoar à vontade,

mas o evangelho não é pregação de riqueza, prosperidade, saquear riquezas

dos ímpios, dar ordens a Deus, etc. O evangelho é: “Primeiramente vos

entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados,

segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia,

segundo as Escrituras” (1Co 15.3-4). Ser cristão não é cantar mantras ou

palavras de ordem, mas firmar um compromisso com Jesus: “Se alguém quer

vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lc

9.23). Afirmo que o evangelho é a velha mensagem de João 3.16. Afirmo que

em lugar algum da Bíblia se diz que Jesus prometeu deixar todos nós ricos,

como diz Hagin, ideólogo da teologia da prosperidade, e guru neopentecostal.

Os chamados tradicionais somos zombados porque nossas igrejas não

enchem como as neopentecostais (até mesmo porque pregamos “conversão”

e não “adesão”). Quando apontamos os desvios doutrinários e a assimilação

de práticas do movimento nova era e das seitas metafísicas de Boston pelos

neopentecostais acusam-nos de dor de cotovelo. Mas merecemos respeito.

Trouxemos o evangelho para este país. Tivemos Bíblias queimadas em praças

públicas, templos apedrejados, pastores espancados e presos. Abrimos e

pavimentamos a estrada por onde muitos hoje andam, à sombra das árvores

que plantamos. O nome “evangélico” que construímos em um século foi para

o lixo.

Não culpem Satanás. A culpa é da ganância e da falta de bom senso.

Ninguém me convence que um pastor precisa ter um haras de cavalos manga

larga. Ou, como diz um outro, alegando ser bênção de Deus, uma coleção de

carros antigos. Morar numa boa casa é melhor que morar em cortiço ou favela.

Mas a ostentação é pecado.

No dia em que anunciava a prisão dos Hernandez, um site alistava seis

notícias favoráveis ao movimento gay. Sobre evangélicos, só a da Renascer. E

dizia que agora haveria a dificuldade em sair a Marcha Para Jesus, da Renascer,

que rivalizava com a marcha gay. A benevolência com que a mídia trata certos

grupos não é a mesma com que trata os evangélicos. E alguns destes

contribuem para a mídia seguir na toada de desmontar a oposição aos

segmentos que a dirigem nos bastidores. Culpa de Satanás? Não, culpa de

evangélicos que não entenderam o evangelho. E de outros que fecham os

olhos a qualquer juízo. E não gostam que se faça juízo. Mas julgam quem julga.

Há oportunistas entre nós. E gente que não entende nada de nada. Por

isso, precisamos voltar às origens. Voltar ao início do cristianismo e da

Reforma, recuperando a essência do evangelho. O evangelho é Cristo

crucificado. Só existe um Cristo, o que morreu na cruz, foi sepultado e

ressuscitado. A mensagem de Jesus não é a de Lair Ribeiro. Cristianismo não é

pensamento positivo ou massagem no ego de pecadores impenitentes. É um

chamado à conversão e a engajar-se com os valores do evangelho. O resto é

deturpação.

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