Atenção proclamadores das boas novas!
É domínio do senso comum que o falar – principalmente em público – e o agir são, em maior ou menor grau, movimentos desalinhados.
Aquilo que verbalizamos retrata o que somos, sejam as coisas que gostamos em nós e que, por isso, fazemos questão de torná-las públicas, sejam as coisas que não gostamos e não aceitamos em nós, e que procuramos dissimula-las, embora freqüentemente sejamos traídos nessa intenção, por atos falhos, bem perceptíveis a um bom observador. Mas também retrata aquilo que gostaríamos de ser, que queremos passar para os outros que somos, mas que ainda não somos e às vezes não estamos nem caminhando para sermos.
Ter consciência dessa contradição, que até um certo nível é normal e compreensível, já é uma grande sacada para seguir pelo caminho da individuação, isto é, do (re) encontro consigo, que amplia o nosso autoconhecimento e gera autotranscendência. Caso contrário recorrentemente projetaremos nossa sombra, nossa obscuridade nas pessoas, organizações e instituições, para o adoecimento individual e coletivo. Ou adotaremos uma postura cínica, do tipo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.
Aqueles que propagam ou acreditam propagar o Evangelho de Jesus Cristo, independentemente de terem sido investidos formalmente para isso, refiro-me a todos que procuram por intermédio de suas vidas testemunhar ostensivamente o Evangelho, precisam primeiramente, sempre que necessário, atualizarem em suas consciências pelo menos três realidades:
1. Somos chamados e não voluntários: O dom que recebemos e o serviço para o qual fomos designados é decorrente exclusivamente dos propósitos soberanos e graciosos de Deus, uma decisão unilateral, em que nossa pretensa inteligência ou meritocracia moral sequer foi levada em conta, isto é, não fomos recrutados e selecionados via análise de currículo, fomos convocados.
2. Somos tesouros em vasos de barros: O apóstolo Paulo proclamou essa verdade na sua segunda carta a conturbada igreja de Corintio (2ª Coríntios 4.7), a saber, que os dons preciosos de Deus, os seus tesouros, foram colocados em recipientes tão frágeis, como nós, seus vasos de barro, para que excelência do poder seja de Deus e não nossa. Ou seja, para ficar evidenciado que somente pela graça e misericórdia de Deus, criaturas tão frágeis como somos, pobres mortais, marcados por vícios, contradições e ambigüidades, podemos mesmo assim portar as preciosidades divinas e sermos protagonistas da história da salvação.
3. Evidenciar Jesus Cristo: Também, a semelhança, do apóstolo, não devemos pregar a nós mesmos, mas a Jesus Cristo (2ª Coríntios 4.5). Devemos tomar cuidado para que nosso testemunho pessoal não ponha em segundo plano o testemunho de Jesus Cristo e leve as pessoas que nos ouvem a pensar de nós além do que convém. Acautelemo-nos de estimular nas pessoas a projeção da imagem psíquica do totem em nós e nos elejam para sermos “santos” por elas e para elas, isto é, para cultivarmos e frutificarmos com abundâncias os frutos das virtudes que elas admiram, mas que não desejam cultivar. Quando assim fazemos, quer consciente ou inconscientemente, estamos conspirando para nossa própria desgraça. Pois quando deslizarmos, cairmos, quando nossa performance não atender as expectativas delas e ela não mais conseguirem maquiar o mito que projetaram em nós, provavelmente a maior parte delas passará a projetar suas sombras e seremos transformados para “expiação” de suas culpas em “bois de piranha”, nos seus “gadarenos” prediletos.
A atualização dessas realidades é uma medida preventiva para a saúde do corpo e da alma nossa e daqueles que nos ouvem e/ou nos lêem. Ressaltar nossa humanidade, que não é divinizada através da conversão, mas lapidada durante nossa caminhada existencial, é sinalizar para Jesus Cristo como o Salvador e desviar de nós a procura obstinada por um santo intercessor e protetor das almas aflitas.
Por Julio César <jcsilveirasilva ARROBA uol PONTO com PONTO br>