Recentemente uma amiga e um amigo cristãos me relataram, em conversas distintas, o desconforto que sentem em aceitar a crença tradicional no inferno, que professa a existência de um lugar de tormento eterno, de “choro e ranger de dentes”, destinado àqueles que recusaram a salvação em Jesus Cristo. A dificuldade que tem de acreditar que o Deus amoroso que nós cremos, que transborda graça e misericórdia, pode mandar uma multidão de gente para um lugar onde Jesus diz, que o “verme não morre e o fogo não se apaga”. Acrescentaram também o desejo de que as coisas não sejam “bem assim”.
Meu amigo me disse que sua nova compreensão da Graça de Deus o induz a crer, a cada dia mais, que no Dia Final o amor de Deus triunfará novamente e Jesus proclamará a suspensão das penas dos condenados ao inferno e os levará consigo para viver o deleite eterno no Paraíso Celestial.
Disse a ambos que compreendo suas sensações, pois num passado recente vivenciei uma série de dilemas e conflitos a respeito da existência do inferno. Havia passado um período de quase cinco anos de abundância de amor e festa. Por uma fase fortemente marcada pela minha passagem universitária na Faculdade de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, por uma ampliação grandiosa na compreensão do Evangelho e pela tomada de consciência de minha vocação.
Neste período de vivência muita intensa em amor e paixão, a maioria dos meus amigos de primeiro e segundo graus e de meus bons colegas não eram cristãos ou eram apenas nominais. Todavia, grande parte deles, cada um no seu devido tempo, sem saber, me ensinou mais sobre amor, amizade, lealdade, hospitalidade, inclusão social, racial e étnica, solidariedade e justiça, em suma, sobre o Evangelho, do que grande parte dos cristãos com quem eu tinha convivido até então.
Isto causou em mim mais perplexidade, devido ao fato de que meus relacionamentos e minhas atividades sócias até meus 20 anos serem majoritariamente circunscritas aos círculos eclesiásticos.
A grande ironia é que isto aconteceu numa instituição nominalmente cristã, pertencente à denominação que eu pertencia, mais cujas práticas corriam na contramão do Espírito do Evangelho e na direção do espírito de Mamon, acendendo velas a Deus e ao diabo, o que me causava muito constrangimento.
Felizmente nesta mesma época comecei a conhecer em abundância, cristãos movidos por valores mais sublimes do que grande parte do que eu tinha conhecido nos meus primeiros 20 anos. Vejam bem que digo a grande parte não a totalidade ou a maioria.
Devido a este histórico, me causava uma forte angústia acreditar que Deus não livrará da condenação ao inferno os meus queridos e as minhas queridas, que ainda não receberam consciente ou inconscientemente (refiro-me aos cristãos anônimos) a Cristo como Salvador, caso morram nesta condição.
Fiz muitas leituras e releitura da Bíblia e de matérias teológicos, sem, contudo, ser persuadido da inexistência do inferno como realidade histórica a ser vivida por parte da humanidade. Não entro no mérito da discussão se os autocondenados serão fulminados imediatamente, após uma período variável de pena ou se viverão eternamente sob sofrimento consciente ininterrupto. Ainda tenho minhas dúvidas a respeito. Tenho por certo, porém, que o rol de membros de qualquer igreja não é uma cópia autenticada do Livro da Vida e que Deus não é evangélico, católico, espírita, judeu ou muçulmano, Ele é Amor, ou seja, Ele é Deus.
Minha angústia hoje a respeito do tema é mínima. Confesso que ainda tenho dificuldades de compatibilizar alguns atributos como pertencentes ao mesmo Deus, mas creio que o amor de Deus é maior que minha percepção dele e minha capacidade de amar, por maior que eu acho que ela seja. E que meu senso de justiça, por mais elevado, gracioso e misericordioso que seja, é injusto diante da Justiça de Deus.
Para mim os cristãos que negam obstinadamente a existência do inferno o fazem por pelo menos três motivos:
1. Insegurança pessoal: Não tem certeza de sua salvação, no fundo tem medo de ir para o inferno, logo desejam que ele não exista;
2. Megalomania: Superestimação da capacidade de amar a humanidade. Acham que o amor de Deus é cópia do seu “sublime amor”. Projetam um Deus a sua imagem e semelhança;
3. Política: temem perder prestígio, visibilidade, amizades, credibilidade ética e respeitabilidade científica, se professarem em público uma crença de aparência medieval e obscurantista.
Por outro lado, os cristãos que pregam obstinadamente sobre o inferno, para mim, são os que acham que precisam deste estímulo aversivo para ter um “comportamento santo” e que, por isso, ficarão enfurecidos com Deus, se no Final Ele resolver revogar a condenação ao inferno e incluir a todos indiscriminadamente na Nova Jerusalém. Afinal Ele é soberano inclusive sobre sua soberania e livre para mudar o curso da história, basta querer. E os cristãos que se deleitam em “mandar” pessoas para o inferno, são os que querem ter mais companhia por lá para compartilharem suas des-graças.
Por fim, digo que o inferno não é problema meu e nem para mim, pois ele nunca foi efetivamente uma possibilidade na minha vida. A salvação de Deus, em Cristo, se efetuou em minha existência, por decreto dado antes da fundação do mundo. É irrevogável! Se Deus, porventura, salvar a todos no Final, eu também me alegrarei, não ficarei bravo, não me sentirei injustiçado, porque é o amor de Cristo que me seduz, não o medo do inferno, a caminhar nas trilhas do Evangelho.
por Julio César <jcsilveirasilva Na uol>