É a evangelização indígena, realizada por movimentos cristão-evangélicos, um dos fortes fatores para a aculturação do índio e conseqüente perda de sua identidade ? Esta pergunta me foi feita algumas vezes nos últimos anos, e demonstra por um lado a legítima preocupação com a preservação da identidade cultural indígena, e por outro a ausência de maior informação quanto à raiz do movimento missionário evangélico que, quanto à culturalidade, é preservacionista. Pensemos um pouco sobre esta questão.
A aculturação é um processo de molde social imposto por uma sociedadedistinta, que pode ser objetiva (imposição aberta, colonialista) ou subjetiva(imposição baseada na atração e conseqüente desvalorização do sistemacultural materno em detrimento do apresentado) sendo que ambas sãoigualmente danosas.No presente, entre os indígenas brasileiros, a aculturação ao universo ‘branco’se dá por três pólos de atração: educação, saúde e comércio. No passado,especialmente, a catequese católica seria também um dos fortes pólos deatração. Indigenistas possuem iniciativas a fim de prover, desta forma,educação, saúde e subsistência aos indígenas sem que os mesmos saiam deseus territórios e, consequentemente, sejam envolvidos pela cultura nãoindígena.Portanto, a permanência ou não em sua homeland – território natal – é vital paraa preservação cultural. Tenho observado que as perdas culturais maisprofundas, e irrefreáveis, vêm acompanhadas da perda do território esucessiva troca por outro onde a expressão grupal possui diferentes códigos e,em geral, o estranho passa por um processo que vai da discriminação socialaté a marginalização.A iniciativa missionária evangélica vem cercada por estes cuidados culturaisatravés da defesa do território. Através da análise lingüística e valorização dacidadania indígena dentro da escala cultural nacional (inter-etnica) se promoveum menor esvaziamento do território natal indígena. A SIL, por exemplo, ésem dúvida uma entidade colaboradora para a permanência indígena em seuterritório natal através de seu esforço de não apenas grafar as línguas indígenasmas facilitar a produção de material lingüístico local que venha a saciar a sededo índio pelo registro, produção literária e transmissão de conhecimento emum nível mais amplo. Por si, esta iniciativa já preserva a culturalidade indígenanacional. Também as atividades sociais (médicas, de educação e subsistência)quando desenvolvidas por entidades missionárias evangélicas são, via de regra,2baseadas na própria língua/cultura/território indígena, sendo que as mesmasse enraízam junto a etnias específicas, de forma menos móvel e maispermanente, o que também contribui para a permanência territorial epreservação da cultura.Em segundo lugar, podemos ver a iniciativa missionária evangélica comopromotora da permanência territorial através da apresentação dos direitoshumanos universais ao povo indígena. Através do conhecimento dos direitoshumanos (do índio em relação ao índio e do índio em relação ao não índio)percebemos positivas e fortes manifestações em defesa do próprio modo depensar, viver e agir. Esta apresentação dos direitos humanos produz tambémuma luta pela defesa do respeito às escolhas do índio, o que faz com que estepossa se manifestar livremente para dizer sim ou não a qualquer prática quejulgue relevante avaliar, seja indígena ou não indígena. A tendênciaantropológica de engessar o índio à sua própria história não lhe dando apermissão de revisar sua vida e costumes (bem como fazer escolhas que julguenecessárias) como cessar o infanticídio, por exemplo, são questionáveis e, seaplicadas ao Brasil escravagista do passado produziria uma sociedade estáticaem suas opções sociais e teríamos, hoje ainda, fazendas cheias de genteescravizada e sem voz.Tendo em mente este cenário podemos pensar no ponto de maiorcontrovérsia quando se trata da atuação missionária evangélica, que é aexposição do evangelho ao índio. A controvérsia se enraíza no pressupostoque a teologia e antropologia possuem em relação ao evangelho. Se por umlado a antropologia clássica o vê como um elemento de literatura religiosaespecificamente cristã, e promotor de uma cultura cristã (no presente)ocidentalizada; por outro lado os cristãos vêem o Evangelho como umapalavra inspirada por Deus e transmitida aos homens, a todos os homens, deforma a-cultural e a-temporal, ou seja, que tem a capacidade de comunicar averdade de Deus a todos os homens em todas as culturas em todos ostempos. São, desta forma, verdades universais. A forma de transmiti-lo, demaneira inteligível e com padrões culturais de compreensão, chama-secontextualização.Portanto, dentro do pressuposto cristão o evangelho não acultura o indígena,mas vem lhe trazer a verdade universal ainda por ele desconhecida, em suaprópria língua e cultura. Igrejas indígenas (cristãs evangélicas) autóctonescomo os Wai-Wai são um bom exemplo de como o indígena convertido eseguidor de Jesus continua sendo índio, com sua língua, sua cultura e suacompreensão da vida. A conversão interior, porém, provoca efeitos visíveis nainterpretação da vida e escolhas diárias, e reside aí, creio eu, a raiz das maiorescontrovérsias quanto à evangelização indígenas. Estas surgem quando o índio,convertido, passa a revisar a vida e evitar, por exemplo, a participação em ritose atos normalmente admissíveis e vividos em seu povo e cultura. Seria o caso,por exemplo, de um indígena que descobre o adultério da esposa e, ao3contrário da tradição histórica, resolve não matá-la mas sim perdoá-la. Seria ooutro que passa a amar seus inimigos (talvez patrões injustos, exploradores) aoinvés de roubá-los e amaldiçoá-los. Seria ainda a mãe que resolve manter suafilhinha viva, ainda que enferma, em lugar de envenená-la como seria oesperado na aldeia. Ou ainda o rapaz que não toma mais caxiri, o ancião quepassa a ver na pajelança elementos ruins para o sua vida, a criança que perde omedo do espírito que produz o trovão e assim por diante. Estas mudanças devida, que geram alterações posteriores na própria cosmovisão, são causadorasde desconforto no mundo acadêmico não cristão.Antes de prosseguirmos façamos, porém, uma diferença entre cultura ehistória, pois quando se afirma que o indígena passa a não praticar certasatividades culturais, o que se quer dizer é que este indígena escolheu nãopraticar certas atividades históricas, visto que todas as atividades da vidahumana em uma certa sociedade, incluindo suas escolhas, são atividadesculturais. Nenhuma cultura é estática. A isenção da participação em algunsatos e cenários tradicionais não pode ser visto como uma aculturação, mas simcomo uma escolha (baseada na conversão) de postura de vida dentro do seuuniverso local e com base em sua crença, ou fé. O rio Içana, por exemplo,cristão e evangélico, é conhecido como o rio onde ‘não se bebe’. Afirmar queé ‘cultural’ beber, como freqüentemente ouvimos, na verdade deveria sermelhor referido como sendo ´histórico´ beber, seja o caxiri ou cachaça. O fatode vários indígenas do Içana não beberem o caxiri ou a cachaça não pode servisto como um rompimento cultural ou aculturação, por um motivo: beber écultural da mesma forma que qualquer outra atividade praticada na sociedadecomo pescar, caçar, casar, adulterar, trair, matar, brincar etc. O fato de umaatividade social ser ‘cultural’ sugere apenas que possui raízes de compreensão eprática naquele grupo.O Evangelho, assim, não acultura mas sim expõe valores que promovem, defato, mudança dentro da própria cosmovisão e universo do povo sem lheretirar aquilo que (ele) julga essencial para viver e ser índio.Nesta secular controvérsia sobre a presença missionária evangélica entre osíndios, a fim de tratarmos os indígenas como moralmente iguais, mesmo queetnicamente distintos, precisaríamos predefinir menos suas escolhas e ouvi-losmais. Outro dia, viajando pelo Alto Rio Negro, ouvi um indígena dizendo:Você pode me falar de Jesus ? Daríamos a qualquer um, neste Brasil, o direitode ouvir do que deseja ouvir. Porque não o índio ?