Discernindo vulnerabilidades no Corpo.
A condição humana é uma condição de vulnerabilidade, a despeito de qualquer camada social ou credo religioso que professem. Durante toda a nossa existência, mesmo sem consciência desta realidade, somos expostos independente de nossa vontade ou escolha, a uma série de situações, experiências, vivências e condições de maior ou menor risco, com variados danos e ameaças à nossa vida e ao nosso bem estar.
Contudo esta condição de vulnerabilidade não é homogênea e igualmente distribuída entre os diferentes indivíduos e grupos sociais. Cada um de nós e os diversos grupos sociais vivem condições e graus de vulnerabilidade aos diferentes danos e ameaças, extremamente distintos e possuem recursos desiguais para se protegerem destes problemas.
Sendo a vulnerabilidade uma suscetibilidade ao dano, e um “estar em risco” de diferentes tipos de ameaça à vida e à saúde, podemos dizer que não se pode estar vulnerável sem estar ameaçado, mesmo que esta ameaça não seja consciente nem evidente.
A vida moderna e o cotidiano de uma metrópole e/ou megalópole expõem cada um dos grupos sociais a diferentes tipos de riscos e ameaças tanto físicas e biológicas como ambientais, sociais e desta forma, trabalhar com os diferentes problemas que enfrentam os seres humanos é trabalhar com os diversos fatores e condições que condicionam, determinam, influenciam, acirram, aumentam ou diminuem as variadas vulnerabilidades individuais e coletivas.
O campo da saúde mental nos mostra que a vulnerabilidade reflete a forma possível do individuo se adaptar e estruturar sua identidade, dentro de um determinado jogo de forças e dentro de um especifico e complexo sistema de relações e normas sociais. Ou seja, revela a síntese que ele consegue fazer (o mapa interno que ele consegue construir) para se situar no mundo. Ex: enxerga a esquizofrenia ou algumas vivências neuróticas como uma forma de adaptação, de significação e de proteção contra um sofrimento e uma ameaça considerados maiores. É uma forma de manter seu mundo e identidade pessoal, ainda que com prejuízo para sí mesmo.
Ao enfatizar os aspectos processuais e relacionais da vulnerabilidade apontamos para algumas de suas características essenciais: 1) seu dinamismo ( a vulnerabilidade não é estável e nem uma característica essencial do individuo – ninguém é vulnerável, mas está vulnerável), opõe-se assim aos conceitos monolíticos de grupos que são vulneráveis; 2) sua não dualidade : não é “sou ou não sou”, “tenho ou não tenho”, mas é algo que posso ter em algumas áreas e dimensões e não ter em outras; 3) aonde ela existe, existe em gradações diferentes. Por isso cada pessoa vive um complexo e dinâmico padrão de vulnerabilidade em cada momento de sua vida.
Também é sempre importante lembrar, que o individuo apesar de estar sujeito a vários constrangimentos sociais não é totalmente determinado por eles e sempre existe um espaço de negociação, articulação, de transformação e alteração de contextos.
Qual é a utilidade de sabermos destas coisas e de que forma nós cristãos evangélicos podemos utilizar este conceito para alguma coisa? Ou seja, porque estamos ouvindo tudo isso?
Primeiramente porque este conceito pode ser uma valiosa ferramenta de análise para enxergarmos as vulnerabilidades existentes nos contextos de vida das populações com que decidimos trabalhar (de forma a não propormos soluções simplistas e pré-estabelecidas e não contextualizadas e negociadas com as populações); bem como a vulnerabilidade que a própria estrutura da Igreja impõe a várias vivências do cotidiano de seus fiéis e a vulnerabilidade dos evangélicos ou de uma determinada comunidade à diferentes questões e riscos reais, mas muitas vezes não percebidos ou negados pela própria postura da Igreja.
Para que as propostas e programas sugeridos pelas comunidades evangélicas em resposta a diferences questões e problemas emergentes deixem de ser pontuais, tímidas, desarticuladas, simplistas, e muitas vezes equivocadas, alienadas, e controversas; é necessário uma aproximação mais critica e mais abrangente em torno destas questões. Entre tais questões, está a reflexão sobre os fatores que influenciam a vivência de uma sexualidade cada vez mais precoce, muitas vezes inconseqüente e de maior risco para gravidez ou DST/AIDS etc..; uma compreensão para a quantidade de casamentos desestruturados e fracassados; uma maior visibilidade para as inúmeras situações de violência, abuso, e isolamento que vários indivíduos vivem nas suas vidas; a compreensão do risco de envolvimento com drogas.
É cada vez mais reconhecida a relevância de se conhecer e se utilizar o conceito de vulnerabilidade tal como tem sido proposto e empregado no campo da Aids, dos desastres naturais, dos estudos sobre crimes raciais e preconceitos. Trata-se, como vimos na primeira parte deste artigo, de uma valiosa ferramenta para análise, conhecimento e diagnóstico da realidade, como também de ferramenta para planejamento de ações e intervenção.
Um exemplo. Dentro das ações e políticas desenvolvidas em doenças sexualmente transmissíveis (DST) e Aids, o conceito de vulnerabilidade passou a ser incorporado como uma resposta crítica aos limites, inadequações, imprecisões e problemas criados tanto pelo conceito de grupo de risco (que associava o risco da infecção pelo HIV ao simples fato de pertencer ou não a determinado grupo atingido: homossexual, hemofílico etc.) como pelo conceito de comportamento de risco (que apesar de universalizar a possibilidade de risco, enxergava-o como fruto apenas dos comportamentos individuais inseguros e inadequados, ou seja, fruto da vontade e escolha individual, sem discernir as diferentes forças que determinavam e influenciavam estes comportamentos).
Assim, percebeu-se que a evolução dos casos de Aids ao redor do mundo não estava somente associada a fatores de ordem individual e físico- biológica, mas também a fatores de ordem política, social, econômica e cultural, e muito ligada a exclusão social. Sendo assim, os diferentes estudiosos, pesquisadores, técnicos e gestores dos programas de Aids se apropriaram do conceito de vulnerabilidade originário do campo dos direitos humanos para fornecer mais elementos para a análise de como as pessoas estavam se infectando e obter uma visão mais abrangente e mais ampla das diferentes forças e influências que interagiam entre si de forma aumentar a vulnerabilidade de grupos específicos.
Além do panorama epidemiológico indicar que a Aids não atingia os diversos grupos sociais de uma forma similar e que a vulnerabilidade de uma pessoa à epidemia estava relacionada à inúmeros aspectos que iam além de seu comportamento individual (dependendo de sua condição e lugar social e de cultura grupal), percebeu-se que não só o aumento da pobreza deixava as pessoas mais vulneráveis à infecção pelo HIV / AIDS e outras DST’s (devido às péssimas condições de vida, à falta de direitos sociais garantidos, à falta de acesso à informação, à exposição à violência, à falta de acesso à serviços, a insumos e a tratamento de qualidade, entre outros…); como o aumento da prevalência do HIV / AIDS nas diferentes regiões, também aumentava a pobreza. Esta sinergia entre AIDS, pobreza, falta de direitos sociais, e precário contexto de vida (chamada de “sinergia das pragas”); tem sido foco de extensa apreensão, pois em várias regiões do mundo esta epidemia tem destruído e demolido décadas de desenvolvimento econômico e social.
Com esta visão mais abrangente, avança-se assim, para além de uma análise simplista que apenas culpabiliza o individuo e os grupos de serem prevaricadores da fé, imorais e pecadores, sem entender as características e contornos de suas escolhas, possibilitando àqueles que querem trabalhar com os diferentes grupos, a possibilidade de melhor conhecer as peculiaridades e contornos de suas realidades.
É claro que a responsabilidade individual não se extingue desta análise, mas fica contextualizada e pode ajudar o próprio individuo, a fazer uma reflexão crítica sobre sua própria condição, mobilizando recursos que não enxerga e atuando sobre forças e influências que a princípio tais pessoas não percebem.