artigos and estudos diversos and reflexão and vida cristã12 mar 2009 01:34 am

Uma das perguntas que mais tenho de responder é: “Por que muitas pessoas quando começam a fazer terapia deixam de ir à igreja?”. Para responder a esta questão, o melhor é descrever, pelo menos um pouco, o que é psicoterapia no prisma eclesiástico. A psicoterapia tem como uma de suas propostas ajudar a pessoa a assumir sua própria vida, fazer suas escolhas e se responsabilizar por aquilo que escolheu e suas conseqüências.

O bom profissional trabalha juntamente com a pessoa que busca ajuda para que ela encontre cada vez mais recursos para viver de forma coerente consigo mesma.

Em geral, quando uma pessoa vem para a psicoterapia, ela está lidando com conflitos que lhe trazem angústia. E o que ela mais quer é achar o caminho da dissolução do conflito para minorar seu desconforto. Entre estes conflitos, pode estar justamente a questão da participação ou não da comunidade religiosa, e muitas vezes o conflito já surgiu em decorrência de uma vida dupla, onde a participação em um grupo religioso é imposto por alguém de alguma forma. Quando a pessoa fala sobre sua vida dupla na psicoterapia, alegando que quer fazer uma escolha, mas não consegue, a terapia vai ajudá-la a se fortalecer para optar por aquilo que ela acredita ser o que quer e o melhor para si. A psicoterapia não busca levar a pessoa a optar por aquilo que até então foi imposto para ela.

Algumas pessoas estão tão frágeis na sua autonomia e livre arbítrio que buscam um julgamento no terapeuta, ou então que ele indique qual caminho seguir. No entanto, não cabe ao terapeuta convencer a pessoa sobre o que ela deve fazer, muito menos julgá-la. A responsabilidade do terapeuta, junto ao cliente, é descobrir todas as opções que a pessoa tem e deixar que ela faça sua escolha. Ou então apresentar ao paciente suas próprias falas e comportamentos para que ele mesmo perceba possíveis incoerências e assuma uma nova postura. Na história de Jesus com o jovem advogado rico, em Marcos 10.17-22, é o jovem quem procura Jesus. É ele quem apresenta uma questão. E Cristo aponta-lhe o caminho, mas deixa que ele faça a escolha. O aspecto mais bonito deste exemplo de relação de ajuda é que, quando o jovem demonstra que a escolha será diferente, Jesus Cristo não o recrimina, mas o deixa ir e o ama com o olhar.

A melhor vantagem que um profissional tem nesta situação é que o cliente em geral vai lhe contar a verdade sobre o que foi escolhido e se está dando conta ou não da escolha feita. Normalmente, quando se impõe uma escolha à pessoa que buscou ajuda, esta tende a ocultar a verdade, caso não consiga seguir na direção imposta.

Como profissionais da psicologia, existe o compromisso com o sigilo. E mesmo quando o profissional é visto como culpado – o que é comum em algumas situações – ele deve se calar mesmo sabendo que a verdade é outra. O paciente, se quiser, pode assumir e dizer a verdade. E alguns assumem. Outros, porém, temerosos das diversas punições e rejeições possíveis, transferem para o psicólogo uma responsabilidade que nunca foi do profissional.

O resultado é que a pessoa não deixa a Igreja por causa da terapia, mas busca a terapia porque já queria deixar o convívio na comunidade religiosa e precisava se fortalecer na decisão já tomada. Ou no mínimo precisava de alguma sustentação.

“…Bem aventurado é o homem que não se condena naquilo que aprova.” (Romanos 14.22).

 

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