artigos Claudio Fonseca on 20 Sep 2011 07:00 pm
A Ética no Casamento.
Desde o tempo do Iluminismo, a ética religiosamente baseada teve uma
má reputação entre muitos intelectuais do ocidente. Sigmund Freud poderia
ser tomado como um porta-voz de muitos estudiosos e educadores na forma
como ele via a ética judaico-cristã como irracional, produtora de culpa, e
falsamente restritiva da liberdade natural. Juntamente com muitos outros,
Freud queria uma abordagem mais “racional” da ética. E se essa rejeição da
ética religiosamente baseada tivesse tido um ponto central de conflito, poderia
facilmente ser em rejeitar a ética judaico-cristã com respeito ao casamento e
sexo, uma rejeição que veio à proeminência cultural com a “revolução sexual”
de uma geração passada. É provavelmente menos comum que intelectuais
seculares tenham explicitamente rejeitado padrões morais judaico-cristãos a
respeito de assassinato, roubo ou mentira.
Mas agora essa rejeição da ética religiosamente baseada está sendo
questionada a partir de uma direção que pode ser surpreendente para alguns: a
pesquisa empírica nas ciências sociais. Vários estudos empíricos recentes em
psicologia e sociologia têm mostrado que as pessoas geralmente
experimentam um nível bem mais alto de bem-estar e felicidade se
permanecem casados por toda a vida e mantêm relações sexuais dentro do
casamento. Não há mais nenhuma razão para ver as regras tradicionais
religiosas contra o divórcio e o sexo fora do casamento como imposições
irracionais de um Deus arbitrário ou inexistente.
I. A Visão Tradicional
Antes de olharmos para o trabalho dos cientistas sociais, seria bom
revisar com maior precisão o que era realmente alegado por pensadores da
moral judaico-cristã. A alegação não era somente que regras morais procedem
de Deus. Era também que regras morais apropriadas tendem a contribuir para
o bem do homem, pois estas regras estão arraigadas em ou correspondem à
natureza e relacionamentos humanos. Isso era verdade, quer alguém estivesse
falando sobre a ética do sexo, de dizer a verdade, de proteger a vida e a
propriedade, ou qualquer outra coisa. Pelo menos desde o tempo de Kant, a
filosofia tem geralmente separado as questões de dever (éticas deontológicas)
das questões que contribuem para o bem humano (éticas teleológicas ou
utilitárias). E esta tendência filosófica é freqüentemente vista em discussões
populares que separam os deveres religiosos da felicidade humana.
Mas na tradição bíblica não há uma separação entre consideração de
deveres e consideração do que contribui para o bem-estar humano. Na
própria Bíblia parece não haver tensões entre dizer que alguém deve seguir
certa regra moral porque ela procede de Deus, e dizer que alguém deve seguir
essa regra moral porque a mesma contribui para o bem humano. Por um lado,
após ter recebido os Dez Mandamentos de Deus e dado ao povo, Moisés
pôde usar a linguagem de dever para com Deus para explicar a importância de
guardar as regras. “Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja
diante de vós, afim de que não pequeis” (Êxodo 20:20). Por outro lado,
Moisés pôde usar também a linguagem moral que soa teológica, que conecta
regras morais com o bem humano, quando explicou o porquê as pessoas
deveriam seguir as regras morais. “Andareis em todo o caminho que vos
manda o SENHOR vosso Deus, para que vivais e bem vos suceda, e
prolongueis os dias na terra que haveis de possuir” (Deuteronômio 5:33). A
separação moderna entre dever moral e considerações do bem humano está
simplesmente ausente na perspectiva bíblica. Os dois estão perfeitamente
unidos porque Deus é visto como a fonte de ambos.
Um pensador cristão que compreendeu isso especialmente bem foi o
teólogo de Princeton Charles Hodge. Ele viu uma unidade completa das
regras morais ordenadas por Deus e os princípios que servem para o bem
humano, pois “há uma revelação imperfeita da lei [de Deus] na própria
constituição da nossa natureza.” E muitas das leis de Deus mencionadas na
Bíblia “são encontradas nas relações permanentes dos homens no presente
estado de existência deles.” Muitas leis bíblicas “estão fundamentadas sobre a
natureza das coisas; isto é, sobre a constituição a qual pareceu bem Deus
ordenar.” Com isso em mente podemos retornar para as ciências sociais.
Um cientista social que é altamente estimado pela sua habilidade de
sintetizar os resultados de experimentos em ciência social por centenas de
pesquisadores ao redor do mundo é David G. Myers. Seus livros-texto sobre
introdução à psicologia e psicologia social são muito amplamente usados por
universidades em países de língua inglesa. Em seus diversos livros ele parece
ter grande prazer em usar os resultados de pesquisas empíricas para destruir os
mitos que todos supostamente “conhecem”. Uma pessoa deveria ler Myers
somente se estiver disposto a ter o seu pensamento desafiado pela ciência real.
Neste estudo usaremos a compilação que Myers fez dos resultados de
pesquisas nas ciências sociais.
II. Coabitação
Apesar de parecer muito comum as pessoas dizerem que um casal deve
coabitar (viver junto sem casar) para ver se eles são compatíveis, na prática
real, a co-habitação geralmente não traz bons resultados. De fato, há diversos
resultados ruins que tendem a vir.
Diversos estudos amplos, tanto na Europa como na América do Norte,
descobriram que casais que coabitam têm um índice de divórcio bem maior
do que aquele encontrado entre os que não viveram juntos antes do
casamento. Nos estudos diferentes em vários países, o crescimento do
número de divórcios entre aqueles que coabitavam é de 35% a 80% mais alto.
Ao invés de aumentar a felicidade e a estabilidade matrimonial ajudando a
pessoa a encontrar o parceiro ideal, a coabitação promove fortemente o
divórcio (p. 29).
Em adição, coabitações tendem a ser bem mais violentas do que
casamentos. Vários estudos mostram que as mulheres são espancadas pelos
seus parceiros com maior freqüência do que esposas pelos seus maridos.
Estudos mostram que há de 80% a 400% mais violência em relacionamentos
de coabitação do que em relacionamentos matrimoniais. Um estudo descobriu
que mulheres que têm relacionamentos de coabitação têm oito vezes mais
chance de serem assassinadas pelos seus parceiros do que esposas pelos seus
maridos (pp. 31, 32). Contrastes adicionais são que parceiros que coabitam
geralmente relatam um nível mais baixo de satisfação sexual do que casados.
E elas são geralmente menos felizes e mais propensas a ter depressão do que
pessoas casadas. Embora esteja bem estabelecido pela ciência que um
casamento feliz é o melhor indicador de que uma pessoa será feliz com a vida
como um todo, aqueles que vivem juntos são apenas um pouco mais felizes
do que os solteiros (pp. 41, 42).
III. Divórcio e Mães Solteiras
Provavelmente estamos todos cientes do alto índice de divórcios na
maior parte da Europa e América do Norte. Com algumas diferenças
regionais e nacionais, parece que aproximadamente metade dos nossos
casamentos termina em divórcios. Ao mesmo tempo, inúmeras mulheres
estão sendo mães sem nunca terem casado com o homem que é o pai dos
seus filhos, fazendo surgiu a nova expressão: “pais que batem e correm”. Isso
tem impelido os cientistas sociais a investigarem o divórcio e a maternidade
solteira. O retrato não é bonito.
Os estudos confirmam o que muitos suspeitavam. O divórcio faz com
que as pessoas se sintam solitárias, depressivas e rejeitadas, freqüentemente
por muitos anos. O que não é bem conhecido é que o divórcio prejudica
também a saúde física, quase tanto quanto fumar uma carteira de cigarros por
dia. O aumento do índice de mortes mostra que pessoas divorciadas tendem a
viver alguns anos menos do que seus vizinhos ainda casados (p. 43). Divórcios
também tendem fortemente a levar pessoas à pobreza, especialmente se há
crianças envolvidas. Dois lares custam mais que um. Por causa da redução da
felicidade, a motivação por trabalho e ganhos financeiros pode diminuir. E
relativamente poucos homens, na verdade, pagam boa pensão alimentícia ou
suporte para os filhos. A ausência dos pais biológicos parece ser um fato
predominante na pobreza entre as crianças, pelo menos nos Estados Unidos,
mas provavelmente em outros países também (p. 75).
Muitos dos efeitos do divórcio e maternidade independente são
sentidos pelas crianças envolvidas. Simplificando: a ausência dos pais cria
vários problemas para as crianças, não importa se a ausência é causada por
divórcio ou por falta de casamento. Filhos de pais solteiros têm um índice
muito maior de abuso ou negligência por parte de um dos pais (p. 63).
Crianças que vivem com sua mãe biológica e padrasto, ou namorado da mãe,
também correm riscos especiais: altos índices de abuso, índices muito mais
altos de assassinato, e um tabu mais fraco de incesto com os resultados
previsíveis.
Alguns cientistas sociais falam de um “número mágico” de 70%
(setenta), pois 70% daqueles com as principais doenças sociais cresceram num
lar sem pais: 70% dos presidiários, 70% dos adolescentes assassinos, 70% dos
adolescentes que fogem de casa, e 70% dos delinqüentes. Alguns cientistas
começaram a falar de uma “invasão de bárbaros” como uma forma de se
referir a garotos que crescem sem o pai e, portanto, sem a expectativa de
assumir uma posição de marido e provedor de um lar (p. 76, 77). Crianças de
famílias de pais solteiros e famílias com padrasto ou madrasta são duas a três
vezes mais propensas a necessitar de ajuda psicológica. E são muito mais
propensos a se envolverem em sexo sem proteção, fumar cigarros, e fazer uso
de álcool e drogas. Enquanto apenas aproximadamente 12% das crianças que
vivem com os dois pais biológicos têm problemas sérios na escola, isso salta
para 22% se a criança vive com uma mãe divorciada, e para 30% se a mãe
nunca casou (p. 83).
IV. Conclusões Científicas
Sobre as bases da sua exaustiva revisão da pesquisa da ciência social,
Myers afirma o que ele chama de “ideal transcultural: crianças prosperam
melhor quando criadas por dois pais que são permanentemente
comprometidos um com o outro e com o bem-estar dos seus filhos” (p. 87).
E ele aponta que 70% dos divórcios vêm no fim de casamentos com baixo
nível de conflitos, casamentos nos quais o nível de conflito não causa danos
sérios às crianças (p. 89, 90). Alguém poderia adicionar que em tais
casamentos de conflitos pequenos, o divórcio não parece ser de forma alguma
sábio, dado os desgastes humanos, e tais casamentos poderiam prontamente
ser reconciliados se existir o desejo de assim fazê-lo.
Algum movimento em direção a esse “ideal transcultural” é possível.
Passos práticos e úteis podem ser tomados. “Comprometimento matrimonial,
mostram estudos, é sustentado não somente por atração, mas também por
uma convicção moral da importância do casamento e por temor dos custos
sociais e financeiros de uma quebra de relacionamento” (p. 47). Essa
convicção moral e temor dos custos da quebra matrimonial podem ser
elevados nos jovens por uma nova geração de livros-texto para escolas e
universidades, livros que possam identificar esses fatos científicos mais
claramente que aqueles do passado, enquanto também sendo orientados para
o bem humano. Atitudes e ações podem ser significantemente mudadas por
leis e regulamentos a respeito de casamento e divórcio, e talvez até mesmo por
regras financeiras e de impostos. Aulas bem definidas de preparação para
casamento podem ser extremamente eficazes em dar aos casais a idéia,
motivação, e habilidades práticas necessárias para fazer com que um
casamento realmente dê certo. As ciências sociais nos dizem que casamentos
que duram até o fim da vida (e a rejeição de sexo fora do casamento) é um
fator muito grande na felicidade de indivíduos e para o bem da sociedade
como um todo. A ciência pode também nos dizer que existem algumas coisas
que podemos fazer para chegarmos mais perto desse ideal.
V. Conclusões Filosóficas
Sobre a base da ciência real, alguém pode afirmar agora a regra moral
judaico-cristã, “não adulterarás”, como era tradicionalmente interpretada: você
não pode acabar um casamento ou noivado com sexo fora do casamento.
Mesmo um ateu pode afirmar que essa regra tem sido cientificamente
mostrada como sendo crucial para o bem-estar humano. A rejeição dessa
regra é agora não somente anti-religiosa, mas também anticientífica.
Historicamente, os cristãos têm afirmado que essa regra foi encravada por
Deus tanto na natureza e relacionamentos humanos, como também
proclamada por Ele na consciência e nos Dez Mandamentos. A ciência pode
não ser capaz de provar que essa regra vem de Deus, mas hoje o salto da
ciência para a fé é bem menor do que pensávamos no passado.